Rótulos




Rótulos de Bebidas


Baseado no texto: Historia-da-cerveja-no-brasil-primeiros-rotulos/ de Robson Vergilio


Os rótulos fazem parte da vida de todos nós, mas poucas pessoas param para pensar em sua origem e importância. Mais do que uma simples etiqueta, eles contam histórias, transmitem confiança e ajudam consumidores a identificar e escolher produtos no dia a dia. Você os vê, diariamente, em todos os produtos de consumo que fazem parte de sua rotina: seja na cozinha, em seus rituais de higiene pessoal ou mesmo no combate às enfermidades que desaceleram a nossa produtividade cotidiana. O fato é que os rótulos estão em todos os lugares, e não apenas para colorir embalagens. Eles são informativos, estéticos e funcionais, devendo estar com tais qualidades em perfeito balanceamento para promover qualitativamente uma marca.

A história do rótulo de bebidas começou no Egito Antigo. Os registros mais antigos de algo semelhante a rótulos datam de cerca de 3.500 a.C.. No Egito Antigo, era comum que as ânforas de vinho e azeite recebessem inscrições manuais, indicando a região de origem do produto, o tipo, a safra e às vezes o produtor. Essas marcações não só organizavam o comércio, mas também transmitiam uma forma inicial de qualidade e procedência.

Com o tempo, essa prática se espalhou por outras civilizações, como a grega e a romana. Os romanos, por exemplo, já utilizavam selos e inscrições em recipientes para diferenciar vinhos, azeites e perfumes.

Na Idade Média/Renascimento, vinhos italianos começam a usar brasões, paisagens e símbolos familiares em rótulos de papel, criando uma identidade visual e o colecionismo (enografilia). Com o transporte em barris de madeira, as marcações eram feitas com ferro em brasa para identificar o conteúdo durante as grandes navegações.

O grande salto na história dos rótulos veio com a popularização do papel e da impressão gráfica. A partir do século XV, a invenção da prensa de Gutenberg abriu caminho para a criação de impressos em grande escala.

No entanto, foi no século XVIII, com a difusão das garrafas de vidro, que não permitiam que se se fizesse inscrições diretamente sobre elas que os rótulos ganharam uma função crucial: identificar bebidas como vinhos, cervejas e destilados, agregando valor estético e comercial. A indústria papeleira desempenhou papel fundamental nesse processo, oferecendo materiais de melhor qualidade para impressão, acabamento e durabilidade. O rótulo moderno de papel surgiu de fato com a necessidade de diferenciar produtos em um mercado crescente após a Revolução Industrial.

A invenção da litografia revolucionou a impressão gráfica permitindo a impressão em larga escala com cores e permitindo designs complexos, coloridos e detalhados, tornando o rótulo mais comercial e esteticamente rico (Belle Époque). Isso transformou as garrafas de vidro em veículos de marca.

No Brasil, a produção gráfica de rótulos se intensificou no século XIX. Os rótulos de cachaça, por exemplo, passaram a usar estéticas que iam do rococó à art-decó, refletindo a cultura popular e eventos históricos, e quanto às cervejas marcas como a Brahma possuem registros de rótulos históricos que datam de mais de 120 anos, usados para celebrar a longevidade da marca.

Até o final da década de 1830, a cachaça era a bebida alcoólica mais popular do País. Além dela, eram importados licores da França e vinhos de Portugal, especialmente para atender à nobreza. Nesse período a cerveja já era produzida, mas num processo caseiro realizado por famílias de imigrantes para o seu consumo.

Apenas a partir de 1859 é que começamos a ter produção de cerveja em nosso território, e é ai que começa a história dos rótulos brasileiros de cerveja.

As primeiras cervejas produzidas e vendidas no Brasil não possuíam rótulo, e eram genericamente denominadas de “Cerveja Barbante”, essa expressão, que se tornou bastante popular até os dias atuais vem do fato de que as cervejas da época eram acondicionadas em garrafas de vinhos, arrolhadas. Como a indústria era bastante rudimentar e as técnicas de carbonatação eram pouco conhecidas, os produtores da época amarravam a rolha ao gargalo da garrafa com barbante, para evitar abertura espontânea devido ao acumulo não controlado de CO².

Até meados dos anos 1890, a maioria das publicações faziam referência apenas a venda de cervejas em determinados locais.

A partir deste ponto, vou dividir a história dos rótulos em 4 períodos:
Primeiro Período: de 1808 a 1922;
Segundo Período: de 1922 a 1950;
Terceiro Período: de 1950 a 2000;
Quarto Período: de 2000 aos dias atuais.


Primeiro Período: de 1808 a 1922
Neste período os rótulos serviam principalmente como etiqueta de identificação, neles constavam os dados do fabricante e o nome do produto. Uma característica comum, já naquela época, era o fato das cervejarias destacarem sua origem. A maioria dos rótulos frisavam que eram produzidas no Brasil, e em determinado estado federativo.
Veja exemplos:
  

                  Sem data definida anterior a 1900                                        Antarctica 1895                                        Inicio sec XX - 1901

História do Rótulo da Brahma:
Em Abril de 1888 o jornal “Auxiliador da Indústria Nacional” anuncia o surgimento de uma pequena fábrica de cerveja de alta fermentação, chamada Brahma, cujo o proprietário era um imigrante sueco, nascido em 1856, o engenheiro Joseph Villiger, que chegou ao Brasil em 1879 estabelecendo-se à Rua do Visconde de Sapucahy (antiga Rua Bom Jardim e atual Marquês de Sapucaí, número 128, esquina da Travessa Dona Rosa).

A fábrica foi inaugurada com capacidade de produção de 12 militros/mês.

Em 3 de Setembro de 1888 foi apresentado na junta comercial da Capital do Império, a 1 hora da tarde, o pedido de registro da marca Brahma e a imagem de vários rótulos que seriam utilizados nos barris dos diversos tipos de cervejas.

Abaixo o documento e sua transcrição:

“Villiger & Cia estabelecidos com Fábrica de Cerveja na Rua Visconde de Sapucahy nº 122 B, Rio de Janeiro, usam para distinguir a Cerveja de sua fabricação o rótulo acima colado. Lê-se neste rótulo as palavras “Manufactura de cerveja Brahma” “Villiger & Cia” “B 122 R. Visc. De Sapucahy 122 B” “Rio de Janeiro” a paralavra Brahma está escripta com letras altas de typo grosso, no lado esquerdo vê-se um emblema representando uma senhora em cima de um barril, tendo na mão direita um copo com cerveja, e mostrando com a esquerda a palavra “Brahma” no fundo deste emblema observa-se lúpulo e cevada no barril acha-se pregado um lettreiro com a palavra “Branca ou Dupla”, para as diferentes qualidades de cerveja muda-se esta palavra e cores dos rótulos do modo seguinte:
Para cerveja dupla branca – BRANCA – Rótulo em 4 cores
Para cerveja simples branca – SIMPLES – Rótulo em 1 cor encarnada
Para cerveja dupla preta – PRETA – Rótulo em 1 cor preta
Para cerveja simples pretaa – SIMPLES – Rótulo em 1 cor Preta
Para cerveja parda – PARDA – Rótulo em 1 cor café
O rótulo está cercado com duas linhas em todos os quatro lados formando nos pontos de encontro ângulo recto, a cor d’estas linhas é correspondente ao de cada rótulo.
Rio de Janeiro, 3 de Setembro de 1888 – Villiger & Cia
    
    

Em 6 de Setembro de 1888, em virtude do despacho da Junta comercial, foi efetivado o registro sob o nº 1549.,
Pagou no 1º exemplar: Imposto de sello e 300 Réis de taxa adicional de 5%.

Em 1894 a Manufactura de Cerveja Brahma, Villiger & Coompanhia é adquirida pelo cervejeiro alemão Georg Maschke, 28, cujo intuito inicial foi o de produzir cerveja pelo mais novo e adiantado método já existente: O de baixa fermentação.

No dia 20 de outubro de 1903, aos 47 anos, Joseph Villiger faleceu.


Segundo Período: de 1922 a 1950
Este foi um período efervescente na produção cultural e artística brasileira, devido a semana de Arte Moderna de 1922. Também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo no ano de 1922, nos dias 13 a 17 de fevereiro, no Teatro Municipal.

Cada dia da semana foi dedicado a um tema: respectivamente, pintura e escultura, poesia, literatura e música.

O presidente do estado de São Paulo à época, Washington Luís, apoiou o movimento, especialmente por meio de René Thiollier, que solicitou patrocínio para trazer os artistas do Rio de Janeiro Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, membros de seu partido, o Partido Republicano Paulista.

A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda, para o modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; a música por meio de concertos, que antes só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados e modernos. O adjetivo “novo” passou a ser marcado em todas estas manifestações que propunha algo no mínimo curioso e de interesse.

Todas essas influências e “novas” tendências foram rapidamente absorvidas pelos rótulos cervejeiros, que passaram de simples etiquetas de identificação, para verdadeiras obras de artes impressas, destacando formas, cores e buscando uma comunicação mais harmoniosa com o meio.

É importante ressaltar que essa não foi uma mudança do dia para a noite, mas sim um movimento lento, que culminou em 1922.

Vide exemplos:
  

O rótulo Vitória Paulista, é de 1932, este rótulo não chegou a ser usado, foi feito para comemorar a vitória que não aconteceu – o mais curioso é que entre os 3 generais há um que é filho de cervejeiro e teve cervejaria, a primeira das tres fotos retrata o General Bertoldo Klinger, filho de Anton Klinger, dono da Cervejaria Antonio Klinger, no Rio Grande do Sul.
A cerveja Cachorrinha, até 1921, não tinha o nome de cachorrinha só tinha a imagem de um cachorro – os consumidores é que passaram a chamar de cachorrinha. Produzida pela Cervejaria Adriática.
  

Terceiro Período: de 1950 a 2000
A partir de 1950, os rótulos passam a sofrer a influência direta do Design Gráfico, assim como o conhecemos hoje. Guilherme Cunha Lima considera que Eliseu Visconti, precursor do moderno design brasileiro, foi também pioneiro no ensino dessa atividade em nosso País. Convidado em 1934 por Flexa Ribeiro, à época diretor da Escola Politécnica da Universidade do Rio de Janeiro, Visconti organiza e ministra um curso de extensão universitária em arte decorativa e arte aplicada às indústrias, adotando em seus ensinamentos a orientação de Eugène Grasset, uma das mais destacadas expressões do art-nouveau na França.

Mas a área só começaria a ser tratada como especialidade artística diferenciada a partir da criação do primeiro escritório de design no país, o FormInform, por Alexandre Wollner, Geraldo de Barros, Rubem Martins e Walter Macedo, após a volta de Wollner da Europa em 1958. Sua atividade levaria depois à fundação da primeira escola superior de design, a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) no Rio de Janeiro, em 1963, sendo o marco inicial da profissionalização do design no Brasil.

Os rótulos passam a ficar “mais limpos e leves”, com foco comercial, criados com bases em pesquisas de mercado, em contato direto com o consumidor. É importante ressaltar também que neste período houve uma grande expansão varejista no Brasil, com a criação de mercados e grandes magazines, o que gerava uma necessidade maior de destaque do produto na prateleira.


  

Quarto Período: de 2000 aos dias atuais.
Ainda estamos escrevendo este novo capítulo, que no Brasil foi desbravado pela Cervejaria Colorado em 1997. O que percebemos, hoje, é que está havendo uma nova ruptura de conceitos, as cervejas estão com rótulos cada vez mais rebuscados e tentando passar mensagens não mais subliminares, mas sim contar sua história de forma clara e direta, através de desenhos. Por que não afirmar que, expor seu produto como se fosse uma tela, uma obra de arte. Por outro lado vemos no exterior uma tendência minimalista, com rótulos pequenos e que pouco dizem sobre o produto, valorizando apenas a embalagem.

O que podemos afirmar por hora, é que os rótulos brasileiros, após buscarem referências históricas, passaram a investir em artes e ilustrações de alta qualidade. Os rótulos minimalistas encontram no Brasil uma dificuldade de penetração, devido às poucas opções de embalagens (garrafas) disponíveis no mercado. Qualquer coisa fora do padrão inviabiliza os custos de produção. Por outro lado, a inserção das latas no mercado “artesanal”, começa a mostrar bastante a tendência minimalista e objetiva dos rótulos.

Vide Exemplos:
  

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