O ato de colecionar, é uma atividade reconhecida há mais de 500 mil anos, como expressão de grupos de objetos com familiaridade formal, funcional, cromática, de constituição material. Há razões que explicam o ato de colecionar que vão desde o desejo da preservação de objetos significativos para a vida de indivíduos ou de grupos sociais, até o extremo psicológico da dificuldade de se desfazer de coisas, nisso incluindo o desejo de materializar a memória.
Há sinais arqueológicos de coleções datadas de 400 a 600 mil anos atrás. Colecionava-se fragmentos de pedra, torrões de terra endurecidos e de cores inusitadas, lascas de ossos, pedra ou calcários com desenhos involuntários ou com inscrições intencionais.
É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma coleção de crânios como talismãs, sabe-se hoje que já existiam colecionadores na Roma antiga, até no Egito, o faraó Tutancâmon tinha o seu acervo de cerâmicas finas.
O Colecionismo não se limita à posse de objetos. O Colecionismo impõe pesquisa, impõe contatos com outros colecionadores, desenvolve o sentido de organização, aguça a curiosidade e, também, é um agente agregador, contribuindo para o desenvolvimento cultural pessoal. O colecionador cuida de seus acervos e com isso colabora com os museus na preservação de artigos e itens de interesse histórico.
O Colecionismo é um mundo em que amantes de diversos itens convivem e desenvolvem habilidades incomuns e vocabulário próprio. Tudo começa quando juntamos todas as peças que temos sobre uma mesa. Então partimos por separar elas por algum critério. Essa experiência deu prazer?
Se sim, é sinal que você vai gostar de tentar encontrar alguma ordem entre cada um dos acervos. Mas para isso, vai precisar identificar cada item. Depois de juntar alguns itens semelhantes, partimos para tentar colocar eles numa certa ordem ou quem sabe até contar uma história com eles.
Certamente você tem uma moeda no seu bolso. Pegue a e dê uma olhada. Agora anote numa folha de papel todas informações que ela fornece. Pronto, esse é o começo. Assim vai fazendo com as outras que encontra. Quando sentir a necessidade de colocar elas numa ordem, então está na hora de encontrar outros colecionadores e trocar umas ideias.br>
A necessidade de colecionar é contemporânea da coleção de objetos utilitários que acompanhava o homem primitivo em seus deslocamentos. Com o tempo, foi estendida aos objetos de uso religioso e, aos poucos, aos evocativos, pois as ações humanas não são aleatórias, têm significado, são regulamentadas, repetidas, aperfeiçoadas e revestidas de simbolismo que pode ser transferido a elementos palpáveis.
O colecionismo ligou-se, desde o início, à ideia de posse que, por sua vez, gerou o conceito de propriedade. Possuir objetos tornou-se manifestação de poder. Assim, a coleção foi ultrapassando sua funcionalidade e tornando mais evidente seu lado simbólico.
Na antiguidade, as grandes coleções estão ligadas aos senhores, reis e imperadores, mas são paralelas ao desejo das culturas de conservar, para o futuro, seu patrimônio. Mas o colecionismo só saiu das mãos dos reis quando a visão medieval do mundo se enfraqueceu, no século 16. Depois de perceber que poderia perseguir a eternidade neste mundo, e não no céu, o homem passou a prestar mais atenção em si mesmo. Desde que o ato de colecionar deixou de ser restrito a reis e aristocratas, há cinco séculos, é difícil dizer o que ainda não virou coleção.
Na prática o colecionismo pode ser um dom, técnica, arte, capricho, mania, em fim é o ato de obter, guardar, trocar, restaurar, organizar, selecionar, expor, uma série de itens que agradem individualmente de acordo com os interesses pessoais ou de um grupo. Quase todos nós colecionamos algo, uns muito, outros nem tanto: moedas, gibis, selos, miniaturas de carrinhos, livros raros, cédulas, figurinhas de futebol, latas de cerveja, carros novos ou antigos, bicicletas, postais, objetos de decoração, aparelhos de jantar ou apenas pratos, etc. Sempre guardados por alguma motivação. Você está em depressão? Tem falta ou excesso de tempo? Sente necessidade de se organizar? Gosta de recordar o passado? Quer ajudar a preservar a história? Pensa em investir financeiramente? Tem vontade de tornar-se mais social e conhecer novas pessoas? Adora estudar história, geografia, artes, esportes, personalidades? Caso você se identifique com uma ou mais destas questões está na hora de se tornar um colecionador, escolha um ou vários temas e mãos à obra!!.
A aquisição exagerada de itens para uma coleção, o seu acúmulo e a não a organização de suas coleções, são indicadores do denominado transtorno de acumulação, que daria o foco no prazer do indivíduo não na coleção em si, mas sim na excitação da busca, da conquista, do desejo de ter, da ganância e vaidade. O colecionador tradicional deve ser um estudioso e conhecedor, que escolhe com cuidado as peças que venham a fazer parte de sua coleção, garimpando em leilões e bazares. já o neófito na sua ânsia de colecionar rapidamente sem ter o grande prazer da procura e do achar, é explorado comercialmente quando adquire e tem o prazer de ter uma “coleção completa” ou ainda declarar por exemplo seu número de posses, bradando “tenho 20.000 peças em minha coleção”, este não vai ser um colecionador, mas sim um “ajuntador”.
Podemos ter ainda neste meio do colecionismo casos patológicos quando o indivíduo não tem um claro entendimento e nenhum controle sobre o seu comportamento de colecionar objetos ou quando vem desenvolver a cleptomania como fonte para os objetos que coleciona.
Quando uma coleção passa a ocupar um tempo exagerado nas atividades do dia a dia do colecionador ou tomar o seu espaço físico, esta começa a deixar de ser prazerosa e o interesse pelos objetos começa a diminuir.
De um modo geral podemos concluir que o colecionismo é uma atividade lúdica e cultural benigna à saúde do colecionador, aumentando o seu grau de cultura, organização, memorização, relacionamento social e se tornando um excelente meio de higiene mental. A coleção é um hobby, que muitos desejam ter e não fazem, por falta de tempo, conhecimento ou nenhum interesse em particular. Numa época onde estresse e depressão são cada vez mais comuns nas clínicas de aconselhamento psicológico, fica confirmado que a pessoa ter um hobby pode ser uma eficiente válvula de escape para as tensões cotidianas.
Assim, colecionar traz diversos benefícios para a sociedade e para a vida pessoal. Entre eles, estão fatores positivos como desenvolver o senso de organização e classificação, fortalecer o poder de negociação, aumentar o repertório cultural, incentivar a interação e socialização com outros colecionadores e fortalecer o vínculo com as memórias e momentos especiais. Além disso, o colecionador tem um papel importante na sociedade e contribui para a continuidade da cultura. Ao preservar objetos, eles atuam como protetores dos conhecimentos do mundo e são buscados por museus para exposições.
O Colecionismo de Itens de bebidas ou o Colecionismo Cervejeiro
O colecionismo é a vitrine mundial dos itens de bebidas. Ele é muito amplo, abrangendo muitos itens colecionáveis. Tudo pode ser objeto de coleção por mais estranho que possa parecer, desde que seja um item autêntico e tenha marca, logotipo e/ou uma relação explícita com uma fábrica de bebidas. Como tal o são: tampinhas metálicas, tampinhas plásticas, abridores de garrafas, rótulos, garrafas e latas (vazias ou cheias), barris, tampas de barris, torneiras de chopp, bolachas, bandejas, móveis e utensílios (copos, taças, canecos, coolers, geladeiras, freezers, mesas e cadeiras, etc.), vestimentas (bonés, camisetas, aventais, etc.), porta-garrafas, porta-latas, guarda-sóis de praia, material de propagandas de PDV (ponto de venda): cartazes, cartazetes, banners, displays, faixas, etc.; placas luminosas e, ainda, promoções, brindes e prêmios relacionados às bebidas e que são de interesse dos colecionadores.
Os colecionadores de itens de bebidas podem ser especializados, colecionando itens por tipo de bebidas (cervejas, refrigerantes, vinhos, alcoólicos ou não, etc.), somente de um ou alguns países, por tema (com determinados textos ou imagens, etc.) ou por evento ou período (determinado ano, olimpíada, guerras mundiais, etc.). Os itens preferidos dos colecionadores são difíceis de se apontar, pois normalmente se dedicam a mais de um tipo de coleção. Normalmente, quem tem espaço para guardar e expor sua coleção, opta por uma maior diversificação e por itens de maior volume (latas, garrafas, barris, propagandas, etc.). E, quem não tem espaço, opta por itens de menor volume (tampinhas, rótulos, bolachas, etc.), normalmente preferidos pelo time feminino.
No Brasil os colecionadores estão espalhados por todo o território, com a maior concentração na região Sudeste e Sul. Há algunsanos havia, aqui, três principais clubes de colecionadores: o Brasil Chapter – Clube de Colecionadores de Itens de Cerveja, Refrigerantes e Afins, com mais de 1000 associados, reconhecido pelo Brewery Collectibles Club of America (BCCA), constituindo-se em seu Chapter #147; o RioLatas – Grupo de Colecionadores de Itens Cervejeiros do Rio de Janeiro; e o Tcherveja – Clube Gaúcho de Colecionáveis Cervejeiros, acho que atualmente resiste, ainda, o Tcherveja.
O que movimenta este tipo de colecionismo no país é a constante procura. Como necessita de grande comunicação, são utilizados sites de grupos em redes sociais, grupos no WhatsApp. A cada movimentação dessas peças o seu valor se eleva, pois com a normal utilização dos Correios a tarifa passa a ser incluída no preço. Os colecionadores conseguem suas peças trocando e/ou negociando nas reuniões e convenções tanto de seus clubes como nas convenções e encontros de multicolecionismo que ocorrem nos mais diversos Estados do Brasil ou outros países. Também compram de particulares no site do “Mercado Livre”, em lojas e feiras de antiguidades, em lojas de colecionismo, em lojas virtuais. E participam de leilões e vendas a preço fixo, com itens sendo negociados a preços exorbitantes em função da procura.
Os exemplos a seguir mostram um pouco desse mercado: uma lata cheia de cerveja Alterosa dos anos 1970 atinge fácil em qualquer leilão a cifra de alguns milhares de Reaisl – e sua tampinha e rótulo, raríssimos, têm um valor inimaginável; uma tampinha de refrigerante Gato Preto, da Fábrica de Bebidas Paraguay, já fechada, é vendida em promoção por mais de duas centenas de reais.
Geralmente a média de tampinhas no Mercado Livre, dependendo de idade, raridade e conservação, gira entre R$ 10 e R$ 30 – e, se tiver texto ou desenho internamente, pode chegar a R$ 80. Há ainda um ramo desse colecionismo de tampinhas que não é de bebidas, mas está sempre atrelado a ele: o de produtos como óleo de peroba, água sanitária, detergente, vinagre, etc., que pela idade e raridade são ainda mais caros. Os rótulos usados, dependendo do estado, chegam a R$ 60, enquanto os novos, sem uso, atingem valor ainda maior.
No exterior, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde o universo do colecionismo é maior, há uma enorme gama de itens e um comércio especializado muito mais desenvolvido, tornando muito conhecido os produtos da indústria. É caríssima a compra no exterior através do site do E-Bay.
No Brasil, a maioria dos fabricantes de bebidas prefere destinar grandes somas para propaganda em publicações e outros veículos em vez de usar o que tem nas mãos quase gratuitamente: os rótulos e as tampinhas, que são os verdadeiros marketeiros de seus produtos, ignorando-os por achar irrelevante, seja por ignorância ou por acreditar que a qualidade e o boca-a-boca farão com que seus produtos sejam muito conhecidos. No caso dos rótulos, por exemplo, há mau gosto nos desenhos, marcas em língua estrangeira que não dizem absolutamente nada ou textos muito reduzidos, tornando difícil saber o que é e o que contém, confundindo o comprador e fazendo com que ele acabe levando a bebida das grandes fábricas que ele já conhece, quando poderiam trazer informações de seus prêmios conquistados e que tanto prezam.
No tocante às tampinhas a situação é bem pior. Em função do espaço reduzido, ela não traz informação alguma, esquecendo-se que no momento em que ela se separar da garrafa ninguém jamais saberá do que se trata. A memória é curta. O fabricante, por causa de centavos na fabricação de uma tampa, prefere usar uma tampa genérica de cor única (lisa) ou um desenho estranho, em vez de um pequeno texto com a marca e/ou o nome da fábrica. Poderia até ser usado um adesivo que faria com que ele economizasse um bom dinheiro em propaganda. Trata-se de um material que interessa ao colecionador e que possivelmente fará com que sua marca viaje por vários países, tornando-a conhecida. Não se exige que o produto seja distribuído e vendido em todo o Brasil, mas, através do colecionismo, uma marca pode se destacar e ser conhecida, pelo menos regionalmente.
O mais doloroso de tudo isso é a forma como é tratado o colecionador, com raras exceções, junto aos fabricantes de bebidas. Ele é considerado “um chato”, “um pedinte” e que não deve ser atendido. E o interessante é que normalmente há uma seção para atendimento ao consumidor em seu site, mas ele não atende, não informa, não responde.
O colecionador tem que ser um pedinte realmente, tem que tentar conseguir. Como ele conseguirá o item que procura para sua coleção? Um item de uma pequena e desconhecida fábrica a mais de centenas de quilômetros de onde ele está? Comprar o produto? Nem pensar… Não chegaria nunca.
Então ele pede e não é atendido, normalmente tendo suas mensagens ignoradas, nem ao menos tendo direito a uma explicação e, às vezes, ouvindo ou lendo coisas que ninguém gostaria de ler ou ouvir. Continuando sua procura, ele acaba encontrando alguém que tem o item e que irá lhe cobrar por várias vezes o preço do produto – e ainda pagará o frete dos Correios. Os colecionadores geralmente pagam R$ 10 ou R$ 15, acrescido de mais do que isso pelo frete, por uma tampinha de um produto que ainda está no mercado. O fabricante do produto nem tomou conhecimento, pagou centavos pela tampinha, não irá usufruir disso e nem ao menos terá uma propaganda de seu produto, já que a circulação será restrita pelo alto valor pedido.
Acredito que os fabricantes, tanto os estabelecidos e os que têm uma loja virtual para a venda de seus produtos, quanto os que não têm a loja mas possuem um site ou fazem parte de rede social, poderiam dar atenção aos colecionadores e atendê-los. Se não for possível doar, que possam pôr à venda esses itens colecionáveis, mesmo que cobrando um valor pelo frete dos Correios, satisfazendo os dois lados: o colecionador que conseguirá o item e o fabricante que terá sua propaganda, fazendo seu produto conhecido até, quem sabe, no exterior. E, por favor, pelo menos ouçam os colecionadores que podem ter boas ideias, inclusive dizendo se gostam ou não de seu produto, mas jamais fazendo uma má propaganda.